A magia da incerteza do agronegócio
Muitos e muito se tem falado sobre a crise financeira por que passa os Estados Unidos e seus reflexos. No Brasil existe uma considerável camada de políticos e economistas que até então defendiam a tese de que a crise não afetará o Brasil; mas como não ser afetado por uma crise tão abrangente como essas? Basta analisar o que esta acontecendo em outras geografias, que surge a inevitável pergunta: o que o Brasil tem de tão especial para não ser afetado?
Resposta simples: nada.
O Brasil já está sendo afetado por esta crise, basta olhar para a taxa de cambio e a bolsa de valores. Mas o meu ponto de reflexão aqui não tem como foco este problema em si, mas os reflexos na agricultura. Vou tentar colocar neste artigo os meus pontos de vista sobre o que pode acontecer com a agricultura nos próximos meses, em especial porque estamos no momento do plantio daquela que poderia ser outra safra recorde. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento das seis principais culturas em 13 das maiores regiões produtoras do país, haverá uma alta de 16,2% nos custos de produção por hectare plantado ou de 12,3% por saca colhida na comparação com a safra 2007/08.
Independentemente do problema com os Estados Unidos a agricultura já enfrentava um importante dilema que era o custo de produção. O custo dos insumos para a agricultura subiu vertiginosamente nos últimos anos em função do aumento da demanda, isto sem se falar no aumento da necessidade de crédito. Mas estes custos, em boa parte, foram compensados pelo aumento dos preços que também foram conseqüência do aumento da demanda por alimentos. Adicionalmente a maior necessidade por crédito se justifica pelo aumento da área plantada, no Brasil estimada em 5% maior que 2007.
Aqui cabe uma reflexão do porque houve aumento de demanda. A resposta é simples quem gerou o aumento da demanda foram os países em desenvolvimento, devido ao expressivo crescimento de suas economias. Os países em desenvolvimento cresceram a taxas médias de 7% ao ano, enquanto os países desenvolvidos cresceram a taxas de 2,5% a 3%. Isto fez com que houvesse maior necessidade de gêneros de primeira necessidade e conseqüentemente gerou aumento de preços. Por outro lado, agora estamos assistindo uma redução no preço das commodities, de novo graças as lei numero um do mercado: oferta e procura.
E como o problema da economia americana afeta os países em desenvolvimento? Graças ao mesmo fenômeno, com menor volume de credito e menos dinheiro em circulação se diminui o consumo no mercado interno dos Estados Unidos, que faz diminuir a importação que por sua vez afeta diretamente os países exportadores que por sua vez crescem menos e geram menor demanda de importação de insumos e de alimentos. É assim que funciona a economia global.
Mas voltando ao caso da agricultura brasileira o grande dilema é como fechar a equação, onde: (a) o custo dos insumos esta muito alto, (b) credito, além de escasso também está com custos elevados, e (c) preços
em queda. Em síntese é assim, vai se iniciar a plantação com custos elevados e o preço inserto, isto sem levar em conta os riscos inerentes a este tipo de negocio.
Outro atenuante é a taxa de cambio, que se mantida nos patamares atuais pode ajudar positivamente o agricultor, mas se cair muito o matará porque alem de afetar o preço de venda do seu produto já terá incidido na compra de alguns insumos importantes dado que atualmente o dólar esta mais apreciado, e boa parte do setor agrícola esta indo às compras neste exato momento. Por ultimo há que se lembrar que muitos agricultores ainda estão pagando dividas de safras passadas.
Isto posto, o incomodo é grande no setor, porque o agricultor não pode esperar muito para plantar, por outro lado, paira a incerteza nos mercados globais que pode afetar diretamente o custo dos alimentos. Talvez a solução seja plantar o que se pode, evitando acessar linhas de crédito nos bancos, ou tomando o mínimo necessário – desde que disponível – de forma a evitar dificuldades para pagar esses empréstimos no futuro. Esta cautela talvez leve a uma redução importante na safra de 2008, por outro lado ajudará a mitigar o risco da grande incerteza do momento atual e se preparar para a safra de 2009.
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