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Memória Curta

A sociedade está habituada a viver ciclos de dificuldade e prosperidade, e talvez por isso, também tenha adquirido um modelo de proteção que ouso chamar de memória curta, ou seja, para seguir em frente nada melhor do que esquecer o passado. A crise financeira que anda apavorando os mercados mundiais não representa nenhuma novidade, dado que situações similares já estiveram presentes em nossas agendas, tanto é que logo no início desta crise se perguntava se não seria um novo crash parecido ao de 1929.

Quem não se lembra da bolha da Internet? Naquela época lancei alguns questionamentos sobre a insana valorização da Priceline, uma empresa de venda de passagens aéreas através do conceito de melhor oferta. Como poderia uma empresa, sem nenhum ativo, valer mais do que a Delta Airlines? Pois bem, foi isto que aconteceu. A Priceline tinha valor de mercado mais elevado que a Delta Airlines, ficando claro que conhecimento também é ativo. Depois do estouro da bolha, as ações da Priceline viraram pó e lá se foi uma enorme quantidade de capital.

O que aconteceu nos últimos anos, não foi nada muito diferente. Para mim, a crise atual é resultado do distanciamento dos valores fundamentais do capitalismo. Neste período, o especulador ganhou maior importância que o empreendedor, levando o sistema financeiro a assumir mais e mais riscos para fazer dinheiro fácil. Mas esta festa, em algum momento deveria acabar, e ai viria o acerto de contas, e foi justamente o que aconteceu.

O espaço que os bancos ganharam para especular, ao invés de financiar o investimento e o desenvolvimento foi enorme, provocando grande inversão de valores, onde o especulador era o mais esperto e o empreendedor o arcaico, o retrógrado. Qualquer pessoa, mesmo o cidadão comum, encontrava facilidade para especular com seu capital. Prova disso é que em países onde a economia é mais regulada, como é o caso da China, os impactos estão sendo menores.

Agora, é chegado o momento de refletir como tirar aprendizado disso tudo para reconstruir um modelo de capitalismo regulado, onde o empreendedor volte a ocupar o lugar do qual nunca deveria ter saído, e os bancos cumpram com o seu papel. Necessariamente, este novo ambiente deve ser mais transparente, de maneira a permitir enxergar riscos de forma mais clara. Em paralelo, há que se trabalhar para resgatar a confiança no sistema financeiro, que ficou extremamente abalada com a crise sistêmica e a onda de falências que atingiu o mundo inteiro.

O problema é que a economia está travada globalmente e não será nem fácil, nem rápido mudar este panorama, apesar dos esforços dos governos das economias mais importantes do mundo. Lidar com percepções não é o mesmo que lidar com fatos e números, exige tempo e paciência. Além disso, será necessário um nível de colaboração entre países jamais visto. Baseado nas iniciativas já em curso parece existir muita disposição, especialmente por parte das economias mais influentes, em trabalhar de maneira colaborativa, mas ainda existe um longo caminho a ser percorrido.

 

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