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Uma reflexão sobre o Perdão

Hoje dia em que se comemora o Yom Kipur (Dia do Perdão), que é uma importante data no calendário judaico, resolvi escrever sobre o perdão. Pura coincidência.

Sem polemizar o tema - mesmo porque o Yom Kipur tem um forte ritual que deve ser bem compreendido antes de se emitir qualquer ponto de vista - sou da opinião que o perdão não pode ser objeto de uma data especifica, mas devemos cultivá-lo como pratica em todos os nossos atos.

A palavra “perdoar” tem origem grega e significa literalmente cancelar ou remir. Para entender o significado desta palavra, recorro então ao conceito bíblico de perdão, onde o pecador é um devedor espiritual. O perdão, então, é um ato no qual o ofendido livra o ofensor do pecado, liberta-o da culpa pelo pecado. Mas não significa esquecer, por exemplo, Deus lembrou-se do pecado de Davi a respeito de Betsabá (Bate-Seba) e Urias muito tempo depois que Davi tinha sido perdoado.

Uma das melhores definições que conheço vem do Dalai Lama que diz: “Perdoar não significa esquecer. Podemos conservar os eventos negativos em nossa mente e na dos cidadãos do mundo, e continuar nossa luta por justiça, mas sem sentimentos de rancor. As vezes corre-se o risco de não se compreender bem o conceito de perdão, achando que perdoar significa submeter-se ou ceder ao antagonista, mas isso é um erro. O significado correto do perdão é não alimentar inimizades.”

A misericórdia pode ser entendida como a virtude do perdão, visto que esta é o inverso do rancor. Mas como perdoar aqueles que cometem crimes hediondos? Parece que a partir do momento que ocorre uma falta, sobretudo em crimes bárbaros, faz exceder o senso comum e a misericórdia perde a sua força. Neste contexto muitas vezes se confunde perdão e justiça, que em absoluto não são a mesma coisa, tanto é que você pode ser justo com alguma pessoa que cometeu uma falha, sem necessariamente perdoá-la.

Perdão também não pode ser confundido com compaixão, visto que esta se refere ao sofrimento, e a misericórdia a faltas, embora o ser humano tenha mais facilidade para perdoar quem sofre. É muito difícil odiar a quem vemos em sofrimento profundo, pois a piedade desvia o ódio e, em linhas gerais, a misericórdia requer reflexão o que não é requerido pela piedade.

Mas o mais incrível é que, muitas vezes, não somos capazes de perdoar pequenas falhas, inclusive àquelas cometidas por nós mesmos. Quando o assunto é julgar somos implacáveis com quem quer que seja. Creio que o principal ponto para se refletir é que a memória do mal não pode se transformar em pólvora para conflitos futuros.

O perdão não é a reconciliação mútua, não é um pacto de não-agressão ou de renúncia à vingança. A experiência do perdão pertence a outro gênero. Embora, às vezes sentimos nossa impotência porque ao não conseguir perdoar, o mais importante é não devolver o mal por mal, por simples vingança. Somente pensando assim você poderá ser capaz de perdoar.

A experiência do perdão rompe vários dos nossos paradigmas, tanto da inteligência como da vontade. A inteligência por não poder desconhecer que te fizeram um mal, muitas vezes irreparável. À vontade, vai clamar por justiça, afinal há que se pagar a dívida. Quando perdoamos não é por conveniência, ou pelo simples ato de perdoar, mas o fazemos de forma livre e espontânea e acima de tudo de forma verdadeira.

Perdoar é um desafio, tanto quando se trata de perdoar os outros, que inclui sentimentos como culpa, raiva, hostilidade, além de dor e sofrimento, como quando tratamos do perdão a nós mesmos; este último está muito relacionado com a auto-estima. A negativa para o ato de perdoar gera ressentimento, sensação de culpa, o que pode se tornar um tormento se não for bem trabalhado.

É certo que ser perdoado causa grande alivio ao se sentir livre da culpa e do sofrimento para quem cometeu a falta, mesmo que sem a intenção, por outro lado conceder o perdão tem o poder de nos aplacar a dor e acalmar a alma. Portanto exercer o perdão pode ser classificado como um ato que provoca uma relação benéfica para ambos os lados.

 

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2 respostas para “ Uma reflexão sobre o Perdão ”

  1. Roseane disse:

    Meu caro amigo,
    Tanto reflexivo, como coerente, sobre um dos atos mais difíceis de praticar, exercitar verdadeiramente.Gostei das pontuações, diferenciações. Muito bom mesmo!
    fraternal abraço,
    Rose

  2. Lara disse:

    Dizem que o rancor é uma das causas do câncer, que nada mais é que uma doença espiritual que tem a ajuda da pré disposição genética ou vice versa. Será que entre os praticantes do judaísmo ou de outras religiões que refletem e colocam em prática o ato de perdoar, há menor incidencia de câncer?

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