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Sobre a vaidade

Pavao - Pavao
A vaidade, em geral, é interpretada como algo negativo, e muito difícil de ser avaliada sob a ótica moral. Na visão de muitos, vaidoso é aquele que quer chamar a atenção, que deseja se destacar dos demais, o que tem seu fundo de verdade. Em essência todos nós demonstramos algo de vaidade em nossos atos, ou seja, a vaidade se apresenta como um dos fundamentos das ações humanas. Como afirmou Mathias Aires, a vaidade é sem limites, durando mais do que nós mesmos, através dos túmulos aparatosos que mandamos fazer.

Um dos desafios que enfrentamos, desde muito cedo, em nossas vidas é ter que administrar conflitos. Dado que a vaidade é um processo desenvolvido pelo homem que vive em sociedade, desde o nosso nascimento, somos submetidos a toda sorte de situações que nos levará a buscar se destacar de alguma maneira dos demais. Portanto a vaidade esta intimamente conectada com o processo de individualização do ser humano, que passados os primeiros anos de vida, de alguma maneira, buscará ser diferente do grupo do qual é parte integrante, o que significa caminhar no sentido oposto ao da integração. Neste ponto surge talvez o primeiro grande conflito a ser administrado.

Durante a infância temos como objetivo ser igual aos demais e ser bem aceito pelos grupos que formamos parte, sem importar quem é o mais rico ou o mais inteligente. Já na fase juvenil, para ser bem aceito pelo grupo é necessário se destacar, por outro lado isto traz conseqüências, sendo a solidão a principal delas. Por isso, a solução é buscar diferenciar-se dos pais e fazer parte de alguma tribo. A vaidade exige uma competência para lidar com a individualização que os adolescentes em geral têm dificuldades para desenvolver.

A dificuldade para lidar com a individualização segue firme em nossas vidas e são poucos os que conseguem a autonomia para se destacar como criaturas que vivem fora dos modelos convencionais. Esta diferenciação, muitas vezes, é exibida através de bens que ostenta. Em várias situações, pessoas que enriquecem sentem-se solitárias e sofrem muito, dado que são poucos os que se preparam para lidar bem com este novo modelo de vida.

Não quero trazer a tona o prazer exibicionista, porque este ganha contornos que vão muito além da simples observação e da filosofia. No entanto, a vaidade exerce forte pressão sobre o homem que vive em sociedade. Vencer significa destacar-se e isto funciona como uma espécie de ópio que traz uma sensação de grande prazer, ao passo que derrota provoca dores profundas e gera sensação de humilhação. Desta maneira, uma derrota nos traz a sensação que estamos atraindo a atenção no sentido negativo, consequentemente sentimo-nos inferiores aos demais.

Vencer significa diretamente estar sob os holofotes do sucesso, ou seja, faz com que as pessoas ganhem visibilidade, que por sua vez alimenta a fogueira da vaidade. Por outro lado, ninguém conseguirá sair vencedor em todas as situações, daí a importância de saber administrar derrotas.

Justamente neste ponto que gostaria de parar para uma reflexão, porque é muito comum pessoas entrarem em depressão quando experimentam derrotas. Vencer não pode ser encarado como opção única, caso contrário a depressão será um caminho sem volta. Não faz o menor sentido se sentir humilhado porque perdeu uma partida de futebol entre amigos. Acredite isto se passa com frequencia.

As pessoas que não sabem administrar derrotas, em geral, perdem o sentido comum da vida, já que tudo passa a ser um desafio. Tudo que se faz sempre dever ter uma meta, cujo objetivo final será atrair a atenção e admiração das pessoas. Assim nos tornamos escravos de nossa vaidade, criando fantasias, e obviamente sofrendo muito com as inevitáveis derrotas. A vaidade subtrai o bom senso, e faz a pessoa querer ganhar qualquer disputa, mesmo que seja um simples ponto de vista. A vida poderia ser muito mais simples se todos os seres humanos fossem dotados de uma boa dose de bom senso e menos vaidade.

A vaidade esta presente em grande escala na vida profissional das pessoas, especialmente quando se aborda o reconhecimento tanto na forma material como social. Em determinadas profissões também existe uma enorme preocupação com a aparência física, que muitas vezes tornam o profissional um escravo e sem direito a vida privada. O reconhecimento, muitas vezes, aparece como uma espécie de lavagem cerebral, em forma de gordos pagamentos em dinheiro para os que superam as metas, assim como viagens surreais, ações e outros prêmios. Mesmo aquele simples troféu de vendedor do ano que orgulhosamente é exibido no ambiente de trabalho é um grande ato de vaidade.

Não creio que exista grandes males em se orgulhar de conquistas, mas é importante tomar cuidado no sentido de evitar afastar-se dos sonhos e projetos de alto valor construídos individualmente. Alto valor aqui não é monetário, mas pessoal e que tem a ver com a forma de ser e pensar de cada um. O sucesso a qualquer preço vai te custar caro, acredite.

Não é a toa que a vaidade, também chamada de orgulho ou soberba, é considerada o mais grave dos pecados capitais, e pode incomodar muito se for exacerbada. Se examine bem e perceberá em você mesmo uma série de atos corriqueiros associados à vaidade, pois embora cada ser humano conheça muito bem as vaidades alheias, desconhece suas próprias. Conhecemos as coisas não pelo que são em si, mas pelas suas diferenças. A essência geralmente nos passa oculta. Além disso, nossas idéias mudam a partir das alterações pelas quais nós mesmos somos submetidos.

O fato de cuidar da individualidade não nos torna egoístas, mas faz crescer, e para tal não é necessário sair em peregrinação pelo mundo, escalar montanhas ou atravessar a nado o Canal da Mancha. O que conta mesmo é a convicção em seus ideais. O egoísta não tem energia própria, por isso, precisa sugá-la dos demais, o que é muito diferente daquele que se vê por inteiro e se preserva como ser humano único que é.

 

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5 respostas para “ Sobre a vaidade ”

  1. Lara disse:

    Boa tarde Luiz, tudo bem!
    Sem dúvida a vaidade está arraigada em nós como a cobiça, a inveja, a ganância, etc. Ao meu ver, quando uma dessas características humanas afloram de forma destrutiva (para a pessoa e para os que a rodeiam), remete a falta de orientação familiar. Os valores morais tendem a sufocar todos esses sentimentos destrutivos, porém os valores sociais tendem a aflorá-los. Me parece que a competitividade em busca do dinheiro e realizações materiais em geral trás a necessidade de que esses artifícios sejam utilizados, caso contrário a pessoa pode ser considerada um fracasso. Acredito que esses vícios comportamentais tem origem mesmo na infância sendo incentivado ou não pelos pais ou os responsáveis pela educação da criança. Infelizmente, eu não acredito que uma pessoa adulta possa mudar. Certamente como você e tantas outras pessoas, eu já me deparei com pessoas vaidosas (extremamente, inclusive) e certamente cega, porque vem acompanhada de outras possíveis defasagens de caráter.
    Um abraço.

  2. Carol disse:

    Bom dia,
    devo dizer que discordo do comentário acima postado por Lara porque acredito que as pessoas possam mudar mesmo adultas. Se não acreditasse nessa possibilidade, não trabalharia com Educação. O conhecimento eleva a auto-estima que pode se tornar vaidade mas, ao mesmo tempo, traz a consciência de que o que sabemos é muito pouco, que há muito o que aprender ainda. Porém, a vaidade pode ser fruto de um desconhecimento de si mesmo, que paralisa as pessoas.

  3. Marcelo Coelho Vieira disse:

    Concordo com a Carol.

    Muitas vezes (talvez na maior parte) agimos de uma maneira ou de outra pelo desconhecimento de nós mesmos. Uma vez deparados com o “eu interior” (que nem sempre é bom de encontrar) temos a oportunidade de sair do “agir-reagir” automaticamente e, a partir de um novo conhecimento, podemos refletir ‘a priori’ sobre nossas reações e “fazer diferente”.

    Desta forma, acredito que também adultos tenham a oportunidade de se modificarem.

    Em tempo, parabéns pelo post Luiz.

  4. Francisca disse:

    Parabéns ao autor pelo excelente texto. Infelizmente, percebemos que a vaidade na sua forma devastadora e não positiva é quem predomina no mundo do trabalho, fazendo as relações sociais e afetivas minarem em nome do reconhecimento, colegas atropelando, disrespeitando profissionais, cada um querendo fazer de tudo, até mesmo o que não compete a ele.
    Como boa assistente social (leia-se insistente social), acredito que todo ser humano é capaz de mudar sim ou ao menos melhorar…rs

  5. Monica disse:

    Oi Luiz,
    Estou um pouco atrasada em ler os seus artigos, mas coincidentemente, na época que você escreveu esse sobre vaidade, também recebi um e-mail com um texto de um lama budista, que acredito que complemente esse seu artigo. Ele fala sobre egoísmo, que está intimamente relacionado com vaidade. Na minha visão, a vaidade tem que ter a ver com se cuidar em todos os sentidos. Não com uma coisa para fora, mas sim, interna sua (sua consigo mesmo). E aí, não existe nada de pejorativo nisso. E, também, vai acabar refletindo no seu exterior.
    Abaixo coloco o texto.
    “Ser espiritual não significa rejeitar o mundo

    Em uma de suas obras mais vendidas, Gestos de Equilíbrio, o lama tibetano Tarthang Tulku questiona a ideia que muitos têm de que ser “espiritual” significa rejeitar a vida mundana. “Até uma pessoa espiritual pode viver com conforto, gostar do trabalho, cuidar da família e ser bem-sucedido na sociedade e no mundo. Ensinam-nos também que não devemos ser egoístas. Na realidade, porém, podemos ser ‘egoístas’ cuidando de nós mesmos – não de um modo egoísta, ganancioso ou melancólico, mas de um modo profundamente cuidadoso – tornando os nossos corpos e as nossas mentes tão harmônicos quando possível. Quando observamos com cuidado nossos sentidos e sentimentos, aprendemos a aceitar-nos, a apreciar-nos e a estar abertos para os outros. Através da integração e do equilíbrio das nossas mentes e dos nossos corpos é possível atingir a paz interior e a alegria, que é o amor”.

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