A retórica verde

Como já se vinha prevendo, em face de dificuldades de alinhamento de interesses de poderosas economias, a expectativa de um acordo, em 2009, visando reduzir as emissões de gases que provocam o efeito estufa ficou para o próximo ano. Assim, a reunião COP-15 prevista para dezembro em Copenhague, deve resultar apenas em uma declaração “politicamente vinculante”, ou seja, um acordo pouco especifico e não obrigatório.
Basicamente isto acontece porque os Estados Unidos – pais que responde por quase um quarto das emissões globais – está encontrando dificuldades para aprovar, no congresso, legislação especifica para controle de emissões. Sem o compromisso dos norte-americanos de diminuir suas emissões, os demais países resistem a firmar compromissos de redução de gases de efeito estufa.
Além dos Estados Unidos, países como a China e a Índia também resistem a adotar compromissos sobre emissões. Situação que se agravou depois da crise financeira mundial, dado que na visão destes países, controlar as emissões significa reduzir crescimento. Visão de curto prazo, que somente levará a mais destruição.
O Brasil por outro lado, fez um anuncio a meu ver confuso, ou pelo menos sem coordenação política. O estado de São Paulo saiu na frente, em medida claramente política, atropelando o anuncio do governo federal e através de lei especifica se compromete a reduzir 20% das emissões de CO2 até 2020, em base ao ano de 2005.
É notório o erro de calculo do governo federal, cuja base é um cenário de tendência que aponta que as emissões de energia, transporte e agropecuária cresceriam 20% até 2020, passando de 1 bilhão de toneladas de CO2, para 1,7 bilhão. Para o desmatamento, se manteria o patamar atual de 1 bilhão de toneladas. A proposta, então é aplicar um redutor entre 36% e 39% sobre o total de 2,7 bilhões.
Ao reduzir 669 milhões de toneladas pelo uso da terra, o cumprimento da meta implica diretamente na emissão de 400 milhões de toneladas adicionais a partir de energia, transporte e agropecuária, ou seja, um aumento de 40%. Pois bem, como fica esta conta dado que São Paulo, que responde por um terço do PIB, se comprometeu a reduzir em 20% justamente em energia, transporte, construção e agropecuária? Uma análise simples nos leva a concluir que o resto do Brasil aumentaria as emissões em mais de 70%, o que é economicamente inviável, pelo simples fato que estes produtos, que seriam altamente carbonizados, não teriam mercado em São Paulo e menos ainda fora do Brasil.
Mas nem tudo é negativo. O fato do Brasil se expor internacionalmente afirmando que reduzirá quase 40% suas emissões até 2020, será importante na negociação internacional, especialmente para esvaziar a retórica de curto prazo da China e Índia. Portanto é fundamental que o Brasil saiba se posicionar perante a comunidade internacional e extrair créditos de suas ações.
Mas isto não permite descuidos, já que o desmatamento, embora em queda, ainda é muito elevado, especialmente para atividades de subsistência ou especulação fundiária na região amazônica. Talvez uma alternativa seja o governo federal rever os incentivos que promovem a ocupação das terras, dado que a reforma agrária vem se dando quase que integralmente na região amazônica. Outro ponto não menos importante é o controle do desmatamento no cerrado, região esta que ainda está fora das estatísticas de desmatamento.
Finalizando, creio ser uma boa lição para a política externa brasileira perder um pouco da soberba e rever os limites da grandeza do Brasil como potencia emergente. Claramente o país deixou de ser o país do futuro, mas daí a exercer um papel de protagonista no cenário internacional ainda será necessário trilhar um longo caminho.
Para refletir, deixo aqui uma sugestão de um vídeo que você pode ver no YouTube clicando aqui. Este vídeo foi produzido por Michael Jackson em 1996, cuja letra fala de desmatamento, pesca predatória e poluição. Filmado na África, Amazônia, Nova Iorque e Croácia, não chegou a ser lançado nos Estados Unidos. Por quê? Talvez você tenha a resposta!
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Uma resposta para “ A retórica verde ”
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17 de Novembro de 2009 @ 12:06
Mudar todos “dizem” querer.
Desde que a mudança não tire o conforto, todas são válidas. A partir do momento em que mexe com o que é confortavel, nada se faz.