Guilt or Not Guilt

Quando o rapaz que parecia ser o líder do grupo, que se mostrava bastante agressivo, pareceu convencê-los de que deveriam se reunir com o chefe naquela tarde e pressioná-lo a mudar de atitude, mesmo que isto significasse colocar o emprego deles em risco, um dos garotos demonstrou não estar convencido que aquela era a melhor maneira de agir. Diferentemente do rapaz que polarizava a discussão, este era mais tranqüilo e falava baixo. Então questionou se todos se sentiam confortáveis a pressionar o chefe, e todos – talvez por sentirem a pressão do líder – disseram que sim.
Então veio a pergunta fatídica do rapaz que se sentia desconfortável com a situação, mas não se alinhava com a estratégia defendida pelo resto do grupo: O que vocês fariam no lugar do chefe, se sete pessoas de sua equipe te procurassem para “exigir” mudanças de tratamento?
Depois de acalorada discussão, houve uma nova dissidência, agora eram dois do grupo de sete os que não estavam de acordo com a estratégia de pressionar o chefe por mudanças como se pensou inicialmente. O líder, ou talvez polarizador, da conversa demonstrou clara irritação por estar sendo contrariado e passou a falar mais alto, quase não permitindo aos demais fazer qualquer tipo de comentário. Adotando uma postura de mártir perguntou: tem mais algum “b.. mole” no grupo, ou vamos enfrentar o chefe e falar tudo que a gente conversou aqui? Se ele não topar mudar acho que temos que reclamar dele para a gerencia.
Todos se calaram fazendo reafirmar a posição de líder do rapaz que claramente tinha diferenças com o chefe que se estendiam além daquilo que conversavam entre eles. Foi quando ele disse, vamos então e no final do expediente a gente o tranca na sala e fala tudo que der vontade. Uma nova pergunta vem ao ar: e se ele não quiser falar com a gente, o que faremos? A gente o obriga, dizendo que se ele não ouvir tudo que temos a dizer vamos reclamar para o chefe dele.
Novamente um pequeno intervalo de silencio, e o líder do grupo diz que o chefe não teria outra opção, afinal eles estavam em sete contra ele. Não tem como dar errado, completou.
Acho que não é tão fácil assim disse outro rapaz, ele pode mandar todo mundo embora. Como? Estamos em sete e ele não pode mandar sete para rua e ficar de boa… ele vai ter que explicar, retrucou o líder do grupo. Você disse tudo, ele pode ter que explicar, mas ele pode nos mandar embora a hora que quiser aí amigo já era. Não vou colocar meu emprego em risco, ainda mais agora no fim do ano que tem fila de gente procurando emprego.
Agora eram três – quase a metade do grupo – que não estavam de acordo com a estratégia defendida pelo líder da discussão.
A confusão se instaurou entre eles, especialmente porque o líder da discussão disse em alto e bom tom que eles eram covardes e medrosos. Não é questão de ser covarde respondeu um deles, é o nosso emprego que está em jogo. Eu também não posso perder o meu emprego disse um dos rapazes, o que fez o líder da discussão ficar ainda mais furioso, que atirou: eu não falei que vocês eram uns covardes… eu tinha certeza que vocês iriam dar para trás. Sabe de uma coisa, vocês que se ferrem junto com o chefe completou o rapaz e saiu.
Os outros seis permaneceram ali e fizeram uma boa reflexão sobre a discussão, cujas conclusões, segundo a minha leitura, aqui sumarizo:
- Por pior que seja a relação com o teu chefe, não se pode chegar com o pé na porta, como queria fazer o colega deles, caso contrário se perde a razão. Nestas situações, é sempre é mais inteligente tentar pela via do diálogo.
- Nem sempre os argumentos são tão contundentes quanto parece e mesmo imbuídas de boas intenções as pessoas podem se deixar levar pelo preconceito, mágoa e outros sentimentos escondidos ou pela influência do grupo.
- Não se deve misturar assuntos pessoais com assuntos de trabalho. Se o cara tem alguma diferença pessoal com o chefe, deve ficar na rua e não no ambiente de trabalho (sic).
- As pessoas têm opiniões diferentes e todos devem poder expressa-las, em especial quando o assunto tem a ver com todo o grupo. Ninguém pode falar em nome de ninguém.
- Reclamações coletivas, em geral, pegam mal porque pode passar a impressão de motim.
- O modo como se argumenta e mostra suas idéias claramente denota intenções ocultas. Em geral, aquele que é verborrágico e pouco profundo não se dá conta disso.
Finalizando, um ponto para reflexão é que nesta situação ficou claro que quando um membro do grupo levanta alguma questão ou expressa uma posição contrária ao aparente consenso, os demais passam a analisar os fatos de forma mais criteriosa e isto pode levar a demover aquilo que parecia ser uma certeza absoluta. Para aqueles que gostam de filmes, recomendo ver “Doze homens e uma sentença” que descreve uma situação parecida com a que acabo de relatar. Trata-se de uma pérola do cinema, um filme clássico, inesquecível, uma verdadeira obra-prima cinematográfica que vale a pena ser visto.
Enviar por e-mail. Hits para esta publicação: 400.
3 respostas para “ Guilt or Not Guilt ”
Deixe uma resposta.
27 de Novembro de 2009 @ 22:59
Gostei do assunto. parabéns pelo texto.
Abs,
Alexandre Silva
1 de Dezembro de 2009 @ 15:55
Quando vc ameaça a sobrevivência do grupo, a resistência à mudança será maior. Portanto, o poder de influenciar o comportamento de outra pessoa dependerá da intensidade da coesão do grupo. Muito bom o texto e o assunto.
Abs.
Renato Miranda
26 de Janeiro de 2010 @ 16:49
O filme é excelente.
Saudações